uma página de contos. que invento .. ou não.

Labels

diário de uma Irrealidade possível (XII)

_
Filhos.
São três os meus filhos.
A Marta, menina crescida, muito crescida, às vezes de alma tão velha que me assusta. Ajuda-me. Acho aliás que egoisticamente é a ela que vou buscar a força, o ânimo, o optimismo. Aprendo com ela todos os dias quando chego tarde, cansada, exausta de horas sobre horas de trabalho, e me espera, irmãos a dormir, com um sorriso também ele cansado nos olhos claros como as nuvens de um dia de céu sem nuvens. Tens sopa a aquecer mãe e recebo a malga lascada de um serviço de pratos que já foi um serviço imponente, e sento-me no chão da sala onde me ajeita uma almofada nas costas para não sentir o frio da parede, de malga quente nas mãos geladas, e a oiço. A voz dela, desta minha filha é melodiosa, com um timbre entre o rouco e o profundo, e por ela, a altas horas da noite, tão tardias que nenhuma criança deveria ser autorizada a estar acordada, eu vejo o que foi o dia dos meus filhos, o que fizeram, a que se dedicaram, o que disseram, como sentiram, por mais um dia, a minha ausência.
Tenho medo. Medo que um dia deixem de a sentir.
_

6 comments:

  1. Ai minha querida, o maior dos erros é esse, não se deixa substituir no seu papel de adulta e protectora. Mesmo que o seu poço seja fundo, você saberá nadar e os filhos ainda não...

    ReplyDelete
  2. há tantos erros na vida da minha heroína Querida Patti que penso ser este um de menos importância.
    Ela é protectora, sim. Com dezasseis horas de trabalho diário para que posso colocar comida na mesa e continuar a pagar o tecto que lhe abriga a família :)

    (atenta que esta realidade convive paredes meias com a maioria de nós) :) *

    Kiss

    ReplyDelete
  3. a ausência mata-se
    com vida
    dessa
    a presente

    um presente
    pode ser
    viva presente

    ReplyDelete
  4. Pedro, Gostei da leitura.
    Bem-Vindo

    ReplyDelete
  5. e tantos de nós (a maior parte provavelmente não enredados em tão triste vida) em tantas alturas, de tantas formas, vamos buscar força aos nossos. No sorriso, na força da sua inconsciência ou muitas vezes pelo suspiro que largam quando os beijámos já tarde, mexemos no seu lençol apenas porque sim. às vezes até sorriem (ou vemos que o fazem) e tudo fica mais quente(...)
    acho que personalizem demasiado agora...
    mas emocionas-me, sabes?

    ReplyDelete