uma página de contos. que invento .. ou não.

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diário de uma Irrealidade possível (IV)

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Sentada no chão da sala escreve uma lista de prioridades. Precisa delas para lhe lembrarem quem foi. O que foi. E para a esperança, vã mas agora não pode pensar nisso, para a esperança de o voltar a ser. A lista começa invariavelmente e quase todas as madrugadas por tudo o que fez para conseguir sair da situação. A mudança de casa para reduzir a renda, os pedidos de ajuda a advogados e tribunais, as conversas com o solicitador, homem cerrado algo pesaroso sem nada poder fazer para a ajudar. As tentativas para um segundo emprego, tantas, desde limpezas a explicações, vendas e uma infinidade de pequenas coisas para receber qualquer coisa como dez euros por dia. A mudança de supermercado, a poupança onde já nada havia para poupar. A venda do carro, a venda de mobília e por último a loja de penhores. A vergonha que sentiu ao transpor aquela porta foi inacreditavelmente maior que a que sente todas as noites ao regressar a casa. Ela que tantas vezes na vida ajudou a que outros não tivessem de tomar estas drásticas decisões, vê-se agora sozinha. Sentada no chão de uma sala que outrora esteve cheia de mobília. De vozes. De risos. De velas acesas cheirosas e flores em cima da mesa. De toques de campainha de quem chega e beijos repenicados a quem parte.
Ela.
Sentada no chão.
A fazer listas de coisas que tem de fazer, que fez, letras corridas e negras num papel amachucado que a prendem, por um fio, à realidade.
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3 comments:

  1. é sempre um fio muito forte, esse... por vezes, consegue-se que alguns amigos nos ajudem a puxar por ele, e já é bom. quando o usamos no dedo como lembrete que há uma lista a cumprir porque há uma vida a cumprir, ainda temos algo... engraçado... não sou capaz de ter pena dessa personagem, só curiosidade para saber como vai acabar por justificar as expectativas que me cria - talvez eu esteja mal habituado a ver pessoas como ela a vencer contra tudo e contra todos...

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  2. como dizia alguém que gosto de ler Meu Amigo, o "não ter expectativas é já de si uma expectativa" e eu só espero que a fasquia não esteja demasiado alta. Isto porque me apetece tudo menos que te desiludas!

    Pena? Jamais escreveria sobre alguém que inspire pena ;)

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  3. sei que não. para escrever sobre gente... "pittyfull" (falha-me o português...), sei que não tens pachorra nem vontade. quanto ao resto, sou apenas um leitor...
    cma

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