memories from a past i've never lived (illusory tales)

uma página de contos. que invento .. ou não.

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diário de uma Irrealidade possível (I)

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Conferiu o extracto bancário para confirmar o que suspeitara. O dinheiro disponível daria para pagar a renda e mais nada. Havia uma infinidade de contas que ficariam, de novo, a aguardar melhores dias. Voltou a pensar, enquanto se arranjava ao espelho, que era inacreditável a situação para onde a haviam atirado. Uma assinatura num papel há alguns anos atrás quando a vida era com outros partilhada, um sonho, um projecto que achou viver a dois, e de repente, tal como o gelo que derrete, ficou o papel ensopado nas lágrimas que chorou mas a assinatura essa era visível, e responsabilizava-a por um crédito que nunca viu para comprar algo de que nunca usufruiu. As negociações com o tribunal e solicitador correram mal. Restou-lhe acatar a penhora de vencimento que reduzia para metade o seu orçamento mensal durante qualquer coisa como uma eternidade. Continuou lentamente a arranjar-se. À mente vinham-lhe todas as formas que já tinha ensaiado e empreendido para ganhar algum dinheiro extra. Sem sucesso. A perda da dignidade era a próxima na calha.
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diário de uma Irrealidade possível (II)

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Entregou-se a explicações que sabia não poder facultar a ninguém.
E afinal o que era a dignidade de alguém, perguntava-se antes de tomar a decisão dolorosa. E dolorosa para quem voltava a perguntar-se, na tentativa de minorar a consequência do que sabia ia fazer, consequência essa difícil de aceitar. De se aceitar. Equacionou tudo o que fizera até aí. Não se poderia propriamente dizer que não havia tentado. Lá estava o busílis. A quem se referia aquele se? que contas teria de prestar? Maiores que as que se tinham acumulado no móvel de entrada antes de o vender? Menores que a vergonha, o desespero?
Tudo é relativo, dissera-lhe um professor de Filosofia na faculdade. Não lhe poderia dar mais razão que no momento presente. Tudo é tão relativo. Assustadoramente relativo.
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diário de uma Irrealidade possível (III)

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Porque o fazes, perguntam-lhe depois, de cigarro na boca e olhos no tecto. Não és, decididamente, como as outras, continuam. (Não sou?, claro que sou.).
Ela arranja-se devagar, um olho nos ponteiros do relógio, outro na meia de lycra que puxa perna acima. Um dia talvez explique, murmura, já de costas, casaco vestido, guardando as notas na carteira. Sai para noite gelada, mal embrulhada num casaco que não aquece, e dispõe-se a percorrer a pé os quilómetros que a separam do destino. O dinheiro para o táxi está na carteira, mas a conta da água aguarda uma transferência no dia seguinte, findo o prazo sobre o prazo para os distraídos, pobres ou simplesmente relaxados. Onde me encaixo?, pergunta-se, apressando o passo. Onde?
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diário de uma Irrealidade possível (IV)

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Sentada no chão da sala escreve uma lista de prioridades. Precisa delas para lhe lembrarem quem foi. O que foi. E para a esperança, vã mas agora não pode pensar nisso, para a esperança de o voltar a ser. A lista começa invariavelmente e quase todas as madrugadas por tudo o que fez para conseguir sair da situação. A mudança de casa para reduzir a renda, os pedidos de ajuda a advogados e tribunais, as conversas com o solicitador, homem cerrado algo pesaroso sem nada poder fazer para a ajudar. As tentativas para um segundo emprego, tantas, desde limpezas a explicações, vendas e uma infinidade de pequenas coisas para receber qualquer coisa como dez euros por dia. A mudança de supermercado, a poupança onde já nada havia para poupar. A venda do carro, a venda de mobília e por último a loja de penhores. A vergonha que sentiu ao transpor aquela porta foi inacreditavelmente maior que a que sente todas as noites ao regressar a casa. Ela que tantas vezes na vida ajudou a que outros não tivessem de tomar estas drásticas decisões, vê-se agora sozinha. Sentada no chão de uma sala que outrora esteve cheia de mobília. De vozes. De risos. De velas acesas cheirosas e flores em cima da mesa. De toques de campainha de quem chega e beijos repenicados a quem parte.
Ela.
Sentada no chão.
A fazer listas de coisas que tem de fazer, que fez, letras corridas e negras num papel amachucado que a prendem, por um fio, à realidade.
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diário de uma Irrealidade possível (V)

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É difícil a vida na noite, de noite, concluiu. É difícil aguentar o olhar guloso do recepcionista de hotel quando se dirige ao elevador depois de receber por sms o número do quarto onde tem de estar. Mais difícil ainda suportar sem um gemido as perguntas indiscretas do taxista que, em noites boas, a leva a casa. Pede sempre para sair dois quarteirões antes. Deus me livre se souberem onde moro. É difícil a vida dos que vivem à noite. Ainda que tenham igualmente que viver o dia. De dia. E os meses de uma eternidade saturada que não passam. Se o fulano do hotel me volta a olhar daquela forma, cito-lhe Turgenev.
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diário de uma Irrealidade possível (VI)

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No emprego não desconfiam de nada. Tenho de o manter intacto. E à tona da água suja onde todas as noites me afundo mais um pouco. Há noites em que acho que morrerei afogada na tristeza que me inunda, outras em que consigo manter a mente afastada de tudo, em que ajo como uma marioneta presa a milhentos fios que contra a minha vontade e querer me puxam, repuxam, magoam. No escritório continuo a fazer tudo como dantes. E a disfarçar as olheiras. Tenho obrigatoriamente de disfarçar as olheiras.
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diário de uma Irrealidade possível (VII)

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Hoje perseguiram-me. Um bando de energúmenos rua fora, descalcei-me, corri que nem uma louca até à boca do metro, o coração a saltar-me pelas orelhas, pelo nariz, olhos embasbacados e as pernas a tremer. Perseguiram-me. Não sei o que teria acontecido se tivessem conseguido agarrar-me. Falei de novo com o advogado que o estado me atribuiu por não poder pagar um. Voltei a insistir que algo tem de ser feito, chamar à responsabilidade quem é realmente responsável. Ouviu-me em silêncio e pela enésima vez aconselhou-me a tudo fazer para pagar o que a minha incauta e confiante assinatura despoletou. Caso contrário ..
Perseguem-me.
De todos os lados.
O único lugar em que confio é o meu sofá branco. Imaculado. Resistente. Como eu própria já fui.
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diário de uma Irrealidade possível (VIII)

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Por vezes fazem-me perguntas pessoais. Não têm que o fazer, é bom mesmo é que não haja nada de pessoal na troca e no serviço. Carne por carne, sentir por não sentir. Mas por vezes fazem-me perguntas pessoais e eu fico sempre sem saber muito bem o que responder. Apelo à dó? À compaixão? Vêm-me à mente as frases cheias de significado com as quais fui criada e educada; A consciência é a única arma que tens para gostares de ti mesma, por exemplo, e concluo que neste momento odeio-me porque calei a minha.
Por vezes fazem-me perguntas pessoais. Como o número de filhos ou onde trabalho de dia ou se tenho o que comer. Acham-me sempre magra demais. Os filhos? Os meus filhos? Nunca falarei dos meus filhos a esta gente. Nunca.
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diário de uma Irrealidade possível (IX)

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Já alguma vez sentiram a necessidade de fazer algo igual a todas as outras pessoas? De ter uma lareira acesa no lar onde regressam ao final do dia e uma sopa quente numa mesa posta com guardanapos em leque espetados nos copos? De marcar uma mesa no restaurante mais in da cidade e lá levar toda a família entre risos e abraços? De abrir a porta do frigorífico para constatar que nada falta e há até algum resto que pode ir para o cão? Já alguma vez sentiram a necessidade de se sentirem normais entre os normais o que quer que normalidade signifique?
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diário de uma Irrealidade possível (X)

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Os meus filhos.
Os meus troncos, onde me agarro para não naufragar, para não sucumbir, seria tão mais fácil para mim desaparecer.
Tão mais fácil.
São três os meus filhos.
E por eles, até a corda que me puxa para baixo no lodaçal onde optei por entrar, mordo.
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diário de uma Irrealidade possível (XI)

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Saio da procuradoria, gabinete engalanado do terceiro solicitador, anafado e gorduroso que me come com os olhos, já me habituei a estes olhares mas o certo é que antigamente não os via. Há quanto tempo foi esse antigamente? Décadas.
Pergunto-me o que terá acontecido ao senhor com ar pesaroso que me atendeu nos primeiros meses.
Saio do gabinete do solicitador depois de mais uma parcela de dívida paga, para verificar que entre entregas e juros cobrados e a cobrar estou na mesma. Precisamente na mesma. Recebi hoje por sms a oferta de uma senhora da sociedade, nome sonante de apelido composto, daqueles que ainda atendo ao telefone na outra realidade que vivo, desesperada à procura de alguém para limpesas da manssão (era assim que estava escrito, garanto-Vos) durante o fim-de-semana. Aceitei. Para a próxima vez que tiver de vir a este gabinete, além de mais dinheiro na carteira pode ser que traga na boca a coragem de mandar o solicitador a um sítio de onde nunca deveria ter saído. Pode ser.
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diário de uma Irrealidade possível (XII)

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Filhos.
São três os meus filhos.
A Marta, menina crescida, muito crescida, às vezes de alma tão velha que me assusta. Ajuda-me. Acho aliás que egoisticamente é a ela que vou buscar a força, o ânimo, o optimismo. Aprendo com ela todos os dias quando chego tarde, cansada, exausta de horas sobre horas de trabalho, e me espera, irmãos a dormir, com um sorriso também ele cansado nos olhos claros como as nuvens de um dia de céu sem nuvens. Tens sopa a aquecer mãe e recebo a malga lascada de um serviço de pratos que já foi um serviço imponente, e sento-me no chão da sala onde me ajeita uma almofada nas costas para não sentir o frio da parede, de malga quente nas mãos geladas, e a oiço. A voz dela, desta minha filha é melodiosa, com um timbre entre o rouco e o profundo, e por ela, a altas horas da noite, tão tardias que nenhuma criança deveria ser autorizada a estar acordada, eu vejo o que foi o dia dos meus filhos, o que fizeram, a que se dedicaram, o que disseram, como sentiram, por mais um dia, a minha ausência.
Tenho medo. Medo que um dia deixem de a sentir.
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(..)

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Está tudo bem? Perguntam-me com frequência, e eu sorrio do tudo e acima de tudo do bem. Que respondo? Que sim que está tudo bem e que não se passa nada ou desfilo perante o atónito interlocutor as mágoas, as necessidades, as privações, o desespero e a insónia, o frigorífico vazio e as contas acumuladas, a ameaça do solicitador e a pressão dos clientes?
Está tudo bem? Perguntam-me com frequência e eu continuo a mentir.
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diário de uma Irrealidade possível (XIII)

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Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Está em tudo o maldito dinheiro. Nos legumes que tenho de comprar para a sopa da semana, nas botas do mais novo que, abertas de velhas e usadas, deixam entrar água e frio, nos livros da mais velha que ainda não os tem. Dinheiro. Maldito dinheiro. E enquanto me esforço e me estafo para o arranjar de todas as formas possíveis vai-se-me a vida. Vão-se-me os anos.
Mais um mês. Mais uma prestação de uma dívida que nunca contraí mas cuja incauta assinatura comprou com direito a juros de não sei quantos por cento. Mais um roubo. Mais um mês. E eu almejo pelo mês em que tudo termine. A dívida ou eu própria. Às vezes pergunto-me quem vencerá.
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diário de uma Irrealidade possível (XIV)

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Não acredito que saibam o que é. Não acredito que sintam como é. Às vezes apetece-me gritar e da garganta não sai um som, apetece-me chorar e sequei as lágrimas ao chorar de tanto chorar sobre tudo e sobre nada.
Às vezes olho à volta e vejo as pessoas preocupadas com tantas coisas que não nos deveriam exigir preocupações..
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Crescem a olhos vistos os meus filhos.
Adultos. Tão adultos que me assustam.
No outro dia alguém me disse que daqui a uns anos largos estas memórias deixariam de ser pesadas, dolorosas e doentias para passarem a fazer parte de uma nebulosidade algo difusa, pouco definida de quem olha para trás e tem mais motivos para sorrir do que para chorar.
Acredito nisso.
Acredito piamente nisso.
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diário de uma Irrealidade possível - FIM -

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Ninguém sabe muito bem de onde vieram.
Apareceram no bairro há coisa de uns três ou quatro anos, de apartamento comprado ali para os lados da avenida. A mãe, Matilde, comprou um dos bungalow de madeira em frente ao maior liceu do concelho e transformou-o em algo que, de tabuleta discreta por cima da porta, anuncia Café com Letras. É um espaço arejado, bem decorado, cheio de prateleiras imensas onde repousam obras antigas e bem encadernadas que competem em linha horizontal com manuais escolares de todos os anos e computadores espalhados em pequenas mesas. Por detrás do balcão aguarda-nos um sorriso sereno num rosto marcado por uma vida que, assim de relance, se adivinha ter sido penosa. Não pelas rugas praticamente inexistentes, nem pela forma de andar ou falar, mas pelos olhos. São lagos de lágrimas secas aqueles olhos. Alguns cabelos brancos espreitam, bem amarrados numa fita de cor, e o avental verde-claro, de traçado e meio, tapa-lhe a roupa deixando apenas de fora um calçado elegante. O filho mais novo trabalha no espaço. Dá explicações, à borla, à miudagem. E o que esta o admira. É um rapaz muito bonito, com os traços delicados que herdou da mãe em conjunto com uma irreverência própria da idade, modos algo antiquados de tão gentil, e grandes olhos verde-escuro, tão escuro como a floresta em dias de inverno, expressivos e a inspirar confiança. Ilimitada. Parece que tenho um fraquinho por ele não é? E tenho mesmo!!
Sabe-se que há mais dois filhos. A mais velha chama-se Marta, é formada em medicina a trabalhar com os Médicos sem Fronteiras, actualmente em África. O rosto de Matilde ilumina-se de cada vez que recebe um postal, um telegrama, uma pequena missiva que lhe traga notícias. Cola-os a todos num quadro de cortiça num canto da sala do café e explica aos curiosos onde está a sua mais que tudo e que faz ela na vida. Os mais pequenos, alunos de 7º e 8º ano do liceu ouvem-na maravilhados e fazem-lhe mil perguntas se ela não tem medo dos animais selvagens e se consegue curar todos os meninos doentes. Os mais velhos chegam por vezes a comover-se disfarçando rapidamente a lágrima matreira ou a cor avermelhada nas faces com um pedido de copo de leite com cacau como só a Senhora sabe fazer. A Senhora. É comum vê-la embrulhar as sobras do dia em papel de prata e dividir em pequenos sacos que distribui pelas mochilas dos que sabe precisam. E como sabes mãe? Pergunta-lhe o filho com frequência ao vê-la evitar umas mochilas e abrir outras. Olha-os nos olhos Miguel, responde-lhe baixinho e num tom tão terno que o atira rapidamente para os anos em que enrolado numa manta rota, no chão de uma sala sem móveis, adormecia ouvindo-a cantar num sussurro a altas horas da madrugada. Olha-os nos olhos que dizem sempre o que calamos.
Do outro filho ninguém sabe grande coisa. Acho que nem ela. É o único com direito a medalhão de fotografia pendurado ao pescoço. Arrisca-se que morreu, que fugiu, que deu um desgosto à mãe e que a mãe lhe deu um desgosto a ele. Assim mesmo à vez. Vez das pessoas que comentam sem saber, mas porque têm de comentar para tentar saber. Ninguém lho pergunta directamente mas quando fala dos filhos ela enuncia-os por ordem de idades e chegando ao Manuel toca ao leve no medalhão. Como que a ter a certeza que ele ainda está por ali.

O espaço é fantástico. E está quase sempre cheio de garotos que em horários divididos ali passam grande parte do tempo livre. Estudam, pesquisam, lêem, comem e bebem. Não há caixa registadora, nem dinheiro, nem qualquer tipo de troca.
O grande mistério é saber como é que ela consegue manter tudo, tudo oferecer sem nada pedir em troca. Diz-se à boca fechada que depois de muito sofrer na vida recebeu uma herança incalculável. Outros alvitram que lhe saiu um qualquer prémio em dinheiro chorudo. A maioria limita-se a agradecer aquela presença serena e meiga, algo etérea, num dos bairros mais complicados, pobres e carenciados do concelho. São vários os pais que lhe pedem que olhe pelos meus meninos que a admiram tanto e outros tantos que a interpelam pedindo conselhos sobre como reagir ou castigar ou premiar. Ouve-os a todos como se nada mais tivesse para fazer na vida. É esta disponibilidade permanente, esta concentração no interlocutor, aqueles grandes olhos castanhos secos de lágrimas e sem brilho, que nos atrai a todos. Como se ali estivesse, por nós e para nós.
O filho sorri quando lhe fazemos perguntas mais íntimas e evita-nos arqueando o sobrolho em tom meio irónico meio sério.
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Há dias, estava eu sentada a consultar uma enciclopédia como as que havia em casa do meu Pai, entrou uma mulher de uns trinta anos, meias de renda preta e saia curta, blusão de pele colado ao corpo, muito maquilhada o que lhe dava um ar patético. Curiosa observei o diálogo entre as duas:
Preciso de ajuda sabe? Precisava que me emprestasse algum dinheiro para poder ir à cidade. Os clientes e o tom de voz baixava à medida que a minha curiosidade aumentava. Vi o corpo da Matilde ser percorrido por um arrepio. Juro que vi! Quando em casa contei o episódio todos me olharam no gozo, mas eu juro que a vi transformar-se. Saiu de trás do balcão onde cortava fatias muito fininhas de pão que depois de barradas com manteiga caseira eram colocadas no forno cobertas de queijo, e faziam as delícias da segunda leva de miúdos que deveria estar a chegar para lanchar e fazer os trabalhos de casa.
Agarrou a rapariga pelos ombros e disse-lhe em voz clara e tão diferente do tom que lhe conhecemos tu queres trabalhar? Ao que a outra, meio assustada com a reacção de quem lhe tinham dito ser a pessoa mais calma e serena que poderia conhecer, respondeu quero, claro, mas como, onde .. a fazer o quê? A senhora sabe como isto está não sabe? Desculpe, desculpe, disseram-me para vir aqui que … olhe desculpe, e quase a chorar ia andando para trás, tentando libertar-se daquelas mãos que lhe apertavam os ombros e daqueles olhos que lhe perscrutavam a alma.
Vi a Matilde acalmar. Abrir uma gaveta e dela retirar um avental igual ao seu. Mirou a rapariga e disse-lhe num tom totalmente diferente, no seu tom; naquele tom que nos diz que é connosco e só connosco que ela está a falar: eu preciso de ajuda por aqui minha querida. Importas-te?

Há algo que sempre me deixou curiosa depois desta cena. Porque é que de todas as pessoas que a Matilde já ajudou, de todas a quem já tanto pagou, ofereceu, proporcionou, teve esta rapariga honras de com ela passar a partilhar o espaço que todos adoramos e onde nos sentimos em casa? .. eis uma pergunta que gostava de ver respondida.
Mas nenhum de nós tem a coragem de a verbalizar. E isso eu sei porquê; temos medo de voltar a ver naqueles olhos o horror, o pavor e a tristeza que vimos no dia em que aquela rapariga entrou no café.
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Somos afinal uns sortudos! E esperamos que a Matilde e o Miguel fiquem por aqui muito tempo. Acho que é isso que temos de lhe dizer este Natal! Acabei de ter a ideia da minha vida!! Mal posso esperar para contar aos outros:
Vamos desenhar-lhe um postal de Natal!
Todos Nós. Juntos. Como ela sempre diz que temos de ser. Juntos são invencíveis, ouvimos-lhe com frequência, Acreditem nisso.
Está na altura de lhe agradecer isso também.
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